segunda-feira, 27 de julho de 2009

Cinco anos de muitas coisas...

Ontem, após dois domingos ausente do Caminho da Graça, estive lá novamente para um culto/comemoração dos cinco anos de reuniões. Encanta-me a simplicidade teológica que vejo lá, e ontem foi emocionante a retrospectiva que o Caio fez. Desde seu auge à sua queda, e seu refúgio em Deus encontrado em Brasília.
Ali, ele comemorou os cinco anos de fé, de caminhada e de relacionamento com Deus. Eu que estava lá, naquela cadeira do teatro do La Salle, comemorava meus cinco meses de cristianismo autêntico e de puras experiências com relação à minha fé. São dezessete anos que beiram os dezoito já. Dezessete anos de porta de igreja, dezessete anos de boas e más experiências. Cinco meses que demorei encontrar, mas encontrei o meu lugar. Talvez não assim, desse jeito. Mas se esses meses acabarem hoje, tenho suporte na minha caminhada cristã para continuar.
Falando em cinco anos, dia 31 desse mês serão cinco anos sem meu tio.
Eu não consigo falar dele, e escrever me parece tarefa tão difícil quanto falar. Mas eu tenho (tinha) a péssima mania de fingir que coisas e pessoas que marcaram minha vida de uma maneira negativa ou sofrida não existissem. Sim, era mais confortável pensar que essas coisas nunca existiram. Que eu nunca sofri, que eu nunca o conheci. Confortável é, mas justo não.
Meu tio existiu, e que existência!
Era uma cara de humor sarcástico, sorriso largo, pele morena e olhos castanhos claro. Era meio irmão da minha mãe, e durante muito tempo morou em minha casa. E foi ali mesmo que ele morreu num sábado, dormindo na sala.
Depois de vários exames e uma eminente exumação do corpo, nada foi encontrado. Como um rapaz de 23 anos morre sem explicação assim?
Dizem que tudo nessa vida vale a pena e que um dia a gente encontra razões para coisas ruins. Não encontrei razões ainda para ele ser tirado de mim, mas aceito isso.
Quando nasci, ele saía do colégio todos os dias e ia correndo me visitar.
E em seus últimos dias comigo, me fez passar por muita coisa boa! Ele era um filha da p*tinha, eu sei. Ou não, minha vó não é p*tinha. Mas ele me fazia muita raiva ao mesmo tempo em que me arrancava muitas risadas.
Eu tinha uns 12 anos e fui à um casamento sozinha. Minha mãe pediu que ele me buscasse de carro no fim do casamento. E lá foi ele. Eram 2 da manhã e quando ele me viu na porta, correu e me agarrou pelas pernas, me levantando no colo gritando bem alto: "Sua pirigueeeeeete, isso são horas de estar na rua?"
Lógico que ele fez isso para que eu morresse de vergonha e, quando chegamos em casa ele riu muito da minha cara.
Outra coisa que lembro foi quando fui visitá-lo no trabalho, de surpresa. Ele me abraçou quando me viu. O que não era muito comum. Acho que ele teve um surto de demonstração de afeto naquele dia. O chefe dele perguntou se éramos namorados até. Imagine um cara de 23 com uma garota de 12-13?
A última coisa que fizemos juntos foi ir ao cimena. Assistimos à Era do Gelo 2.
Semanas depois ele morreu. Eu nunca souber lidar com o luto. Passei três dias chorando, e não fui ao velório, não tive coragem nem condições.
Passado isso, nunca mais consegui chorar.
Mesmo quando meu aniversário chegou e minha mãe me entregou o presente que ele já havia comprado.
Mesmo quando a namorada dele, que estava grávida, perdeu o bebê.
Mesmo quando o aniversário dele passou sem bolo de prestígio, que minha mãe sempre fazia.
Mesmo quando eu me envolvi com caras errados (vulgo todos os caras errados) e ele não estava lá pra me dizer que homens costumam não prestar.
Mesmo quando ganhei meus concursos de redação e ele não estava lá pra me aplaudir.
Mesmo quando joguei handebol no time da escola e perdemos, ele não estava lá pra me zoar ou reclamar do meu short curto.
Mesmo quando me tornei vegetariana e ele não estava lá pra dizer que eu era uma idiota.
Mesmo quando me mudei pra casa nova e ele não teria mais que dormir no meu quarto.
Mesmo quando passei na UnB.

Gostaria de tê-lo em todos os momentos comigo, e mesmo ficando feliz por mim ele jamais demonstraria. Gostaria de ainda ter aquele abraço de 1,90, de ter aquele sarcasmo, aquele sorriso tímido, aquela repulsa por fotos e tudo de bom que ele me trazia.
Então, pra quê fingir que ele nunca existiu?
Existiu sim, e ainda existe em mim. E se pudesse me ver agora, veria a pessoa que me tornei, provavelmente teria orgulho.
Eu não preciso dizer que o amo, pois ele não está mais aqui. E enquanto esteve, o fiz saber disso.
Peço a Deus que nunca me deixe esquecer o rosto dele.



Flores cortadas trazidas dentro de carros
Em uma única linha
Sua família em ternos e gravatas
E você está livre
A dor que eu sinto por dentro
É onde a vida deixou seus olhos
Estou sozinho por nosso último adeus
Mas você está livre
Eu lembro de você como ontem, ontem
Ainda não acredito que você se foi, oh...
Eu lembro de você como ontem, ontem
E até eu estar com você, eu suportarei
À deriva do seu chão de oceano
Eu me sinto pesado, entorpecido e dolorido
Uma parte sua em mim é uma rachadura
E você está livre
Eu acordei de um sonho na noite passada
Eu sonhei que você estava ao meu lado
Me lembrando que eu ainda tenho vida
Em mim

Eu suportarei

Todo lamento é uma canção de amor
Ontem, ontem
Ainda não acredito que você se foi

Até mais meu amigo, até mais.

http://www.youtube.com/watch?v=qRPawS_4wY4&feature=related
Switchfoot - Yesterdays

5 comentários:

Jederson Rodrigues disse...

05 anos, 05 meses... 05 palavras: Deus abençoe você, minha amiga!

Maria José disse...

Cheguei ao seu blog. Gostei. Você escreve muito bem. Talvez venha a ser uma escritora de sucesso, se quiser investir nisto. Li sobre o seu tio. É triste, me emocionou muito, porque há 3 anos perdi minha única filha, que dia 19/08 estaria fazendo 26 anos. Ela simplesmente dormiu e não acordou. Estava bem de saúde e tudo o mais. Mudou-se para outra dimensão espiritual, sem se despedir. Simplesmente se foi. Mas sei que ela está viva, assim como o seu tio. Apenas não podemos vê-los e sentí-los como antes. Mas eles nos podem ver, ouvir e até nos beijar. A vida fica muito difícil sem essas pessoas amadas. Por que elas se foram? Não sei! Ainda não sei. Tento aceitar como desígnio de Deus e assim, vou levando a vida, sempre acreditando que ela fez uma viagem e está lá do outro lado da margem e quando Deus me der a minha passagem de ida, nós estaremos novamente juntas, porque a morte não existe e o amor jamais desaparece.
Parabéns pelo blog, parabéns por seus textos, parabéns por ter entrado na UnB, parabéns por você.

André Amaral disse...

Que triste...

Mas que bom que encontrou o caminho (isso foi um trocadalho..rs).

Jenny disse...

Oh, Rafa, como cada palavra que você escreveu faz sentido para mim...como estamos nostalgicas de pessoas que resolveram dormir e não mais acordar, neah?

LUA DA PAZ disse...

Ca-ra-lho! Ow, serião... Tu é foda, velho. Ele teria orgulho mesmo.

E eu não sei nunca fazer comentários. Me constrange, sua pilantra, pq quando vc dá um simples oi no meu blog é sublime. Sinto teus sentidos.

Beijo.

Ps: eu te amo e tbm sinto muito orgulho de tu.


CARAAAAAAAAALHO, TU PASSOU NA UnB POOOORRAA!! PAAASSSOU CARAAAAAAALHO!!