Era setembro. Ele chegou como quem não queria nada. Usou um "=]" no orkut, eu respondi com um "Oi? (:" meio desconfiado. Ora, socializando por orkut? Quem é que faz isso? Não demorou muito e nossas conversas no messenger se tornaram um costume diário, uma dose de humanidade, de empatia e de divagações sobre as coisas mais banais. Era estranhamente bom pensar que alguém podia realmente se interessar pelos acontecimentos do meu dia, já que quando qualquer outra pessoa me perguntava sobre ele, "normal" era uma resposta satisfatória. Não pra ele. Depois disso, algumas coisas passaram a fazer mais sentido justamente porque existia alguém pra contar mais tarde, quando chegasse em casa. Até chegar em casa tinha um sentido diferente...
O tempo foi passando bem mais devagar nesses dias, cada detalhe era apreciado, digno de nota. O livro lido, a música ouvida, o comentário feito, as notícias recentes. Eu me sentia melhor, como nunca havia experimentado antes. Era gostoso pensar que em algum lugar do mundo eu era importante, querida, e, quem sabe até platonizada. Não demorou muito pra esses sentimentos bons começarem a me causar agonia. Era possível estar apaixonada? Eu? Será que já não estava imune à irracionalidade? Janeiro chegou e ele foi pro Canadá. O distanciamento me parecia bom pra colocar as coisas no lugar. Ainda tinha aulas, pois a faculdade teve um período de greve que esticou o calendário acadêmico. Saí um pouco de casa, conheci algumas pessoas, fui selecionada pro curso de educadores populares, comecei a ler um livro do Rilke. Queria achar conforto em qualquer outro lugar, fugir... Ele me deixava recados no orkut toda semana, contando do Canadá, o que servia pra me deixar com raiva por sentir qualquer faísca de esperança e não ajudava muito nos meus planos do período de distanciamento.


No final de maio eu viajei de novo, pra um seminário em Belo Horizonte e coisas estranhas aconteceram lá, um dos meus grandes amigos acabou interpretando nossa amizade de uma maneira diferente, confundindo as coisas pra mim e pra ele, pensei que nossa amizade havia acabado e, de novo, fiquei bem pra baixo.

No final de junho recebi uma caixa amarela com seu nome. Dentro havia um livro, um ursinho de pelúcia canadense e uma carta. Era a primeira vez que via sua letra. Era uma letra tímida e admito que fiquei um bom tempo olhando para aquele pedaço de papel sem ler, o pensamento de que ele havia tocado aquela folha, reservado tempo para escrevê-la, pensado em cada palavra, escolhido os itens daquela caixa... Tudo isso me deixou meio boboca. Ele começou a carta dizendo que tinha um outro propósito ao escrevê-la, mas tinha perdido parte de seu otimismo fajuto. Foi quando disse que uma imaginação prejudicial o levou a imaginar como seria algo além de uma amizade à distância comigo, porém achava que eu estaria em outros rumos, estes que me distanciariam dele, fazendo-o feliz por mim e infeliz por ele. Não sei se alguém aqui sabe como é o sentimento de ter algo que desejou muito bem ali, quase podendo sentir o gosto. Eu, que nunca soube como agir nessas situações, demorei dois dias para conseguir entender aquilo que estava acontecendo e responder de modo satisfatório. A carta havia me enchido de felicidade e dúvida. Decidi contar tudo o que estava sentindo, por tudo o que passei, das vezes que tentei contar, do que pensava a respeito do assunto. Naquele momento estava acontecendo justamente o que eu temia. Mesmo que tudo desse certo, ainda havia uma palavra de 2.312 quilômetros de comprimento: distância.
Já estava resignada quando ele sugeriu me visitar, o que fez meu otimismo voltar e estômago revirar. O tempo parecia se arrastar mais lentamente ainda conforme a data de sua chegada se aproximava. Eu ia vê-lo pela primeira vez. Era inconsequente, irracional e extremamente empolgante. O reconheci assim que o vi ao lado da esteira esperando a mala, não consigo me lembrar muito bem dos pensamentos que tive enquanto estava ali esperando, eu tremia muito. Ele me mandou uma mensagem dizendo que tinha acabado de chegar e eu respondi dizendo que já tinha o avistado e estava logo atrás dele. Percebi que ele leu a mensagem e abaixou a cabeça, devia estar com vergonha assim como eu. Depois, olhou pra trás, acenou pra mim. Quando estava saindo do desembarque caminhei até sua direção sem dizer nada e dei/ganhei o abraço mais aconchegante e duradouro do mundo.
Pouco me importava de atrapalhar as pessoas que estavam ali, eu poderia ficar o resto da noite naquele abraço, que agora era de verdade. Aquele abraço deu significado a tudo e encurtou o caminho até o beijo.
O resto, apesar de bonito e engraçado, não é importante. And here we are....
O nome dele? Michel Dias Domenech Collares, 23 anos, gaúcho.