quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

O tempo e o esquecimento

O tempo não é muito generoso com aqueles que nunca esquecem. Conosco, ele não é capaz de fechar as portas da lembrança para simplesmente abandonar as coisas. Ele nos acorda no meio da noite com suores e tremores, nos deixa largados, sentados no chão do banheiro chorando lágrimas doces com flúor que vão pelo ralo. Ele esgota todos os nossos mecanismos de auto-análise, coloca-nos na difícil posição de ser só emoção. A razão nos trai, as palavras ficam vazias e a gente quer colo, mas não consegue pedir.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Ausências

Querer que alguém me abrace forte e diga que isso tudo logo vai passar, mesmo que eu esteja descrente desde o começo, já que a permanência das coisas sempre traça seu caminho oposto ao esquecimento em mim. Querer cantarolar minha música preferida até que alguém me mande parar, mesmo que eu conheça essa atração pelo silêncio que me leva dias adentro. Querer que o celular toque pra saber que alguém se importa, mesmo que eu me esqueça dele pelos bolsos das minhas roupas que descansam folgadas sobre meus ossos. Querer me bastar, mesmo sendo tão carente por não me ser suficiente. Querer me amar, mesmo só perdoando o outro. Querer ausências.

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Pequenos términos de mundo

Um exame negativo em outubro, outro em dezembro. Tudo bem, corpo, eu tô entendendo, vou me cuidar.  E a vida recomeça como folha ao vento a esvoaçar sem custo. Que o mundo acabe sem pressa e sem prenúncio. Que dê tempo de ter uma casa com cerca branca, cuidar de loucos e ter cinco cachorros. E que meu corpo se comporte.

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

21 em 21

Não sei que peso é esse que a gente carrega o ano inteiro e despenca no dia em que o planeta completa sua volta ao sol desde o dia em que nascemos. Era mais fácil passar por isso há algum tempo atrás. Vestia meu melhor sorriso e encarava todas aquelas vinte e quatro horas de transição. Não sei o que aconteceu dessa vez. À noite, eu chorei. Passei pelo dia invicta, de cabeça erguida, sozinha. Mas à noite, eu chorei. Não lembro como começou, mas depois as lágrimas ardiam em minha pele. Já não sabia se chorava de dor ou de tristeza. Até que adormeci. Fui coroada com ipês amarelinhos. 21 em 21, o mais difícil de uma existência inteira.