quarta-feira, 16 de março de 2011

escrevi uma carta

Escrevi um carta. As palavras vinham uma de cada vez no início, depois comecei a atropelá-las e a borrá-las com lágrimas no papel bonito que eu havia comprado para levar minha carta a você. Reescrevi em cima do papel molhado, que ficou com um aspecto desleixado e triste. Cansei de me anunciar por aí, cansei travar batalhas comigo mesma. Você ainda se importa? Você ainda espera?
Seus olhos vagavam tristes quando te vi pela última vez, tentei ser forte para você, mas ser forte dói. Dói e cansa.
Amassei a carta, quase joguei-a no lixo, mas enviei mesmo assim, desculpe a falta de jeito. Quero te mostrar com ela que não sou forte. Eu sou fraca. Resisto às pessoas e às coisas por medo. Medo de me expor e perder a inocência. Mas por favor, me entenda e ainda me queira por perto. Eu não lembro mais de como era minha vida antes de te conhecer. Provavelmente era mais triste e vazia. Provavelmente você me revirou dentro de mim mesma de um jeito tão bonito que me fez ser melhor, ou tentar ser. Para mim e para você.
Isso vai passar.
Eu te amo.

terça-feira, 15 de março de 2011

caminhodelágrimas,caminhoporlágrimas

Chorei duas quadras até chegar em casa. Foi o caminho mais longo e tortuoso. Ninguém me percebeu na rua. As pessoas não olham mais nos olhos de desconhecidos, caminham em movimento autômato de apenas colocar um pé à frente do outro e seguir.
Meu soluço tornou-se insuportável junto às contrações involuntárias do meu corpo, que a cada suspiro ficavam mais vigorosas; minha vontade era perder o ar e desfalecer ali mesmo, naquele asfalto abafado e úmido da chuva, me afogar no caminho de lágrimas que fiz.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

O tempo, esse devorador de coisas

Passei as últimas semanas com essa frase na cabeça, lembro que foi tema de algum dos vestibulares que fiz, o 1º de 2009, bati na trave e não entrei.
Não lembro de absolutamente nada que escrevi nessa redação. Talvez não fosse o tempo, a hora, o tema. Talvez fosse a imaturidade dos tenros dezessete anos de idade. Talvez eu devesse juntar senso e doçura de uma vida inteira, longa, de preferência, pra ter as palavras certas. Rilke diz isso. Somente depois que as recordações se tornam sangue em nós, então podem surgir três ou quatro boas palavras de um verso e que o que faz o bom poema não é a emoção (pois a temos de sobra na juventude), mas sim a vivência.
Talvez fosse preciso viver. Viver e ver o tempo devorar a vida. Ver o tempo devorar os lençóis molhados de lágrimas. Ver o tempo devorar as roupas, cartas e músicas. Viver e ver que depois de viver a vida não mima ninguém, só transforma aquelas recordações em sangue e daí conseguimos escrever algumas poucas palavras que se salvem.
O tempo devorou meu medo. Meu medo do sonho, meu medo da vida. Devorou a maior parte de meus sentimentos e os transformou em pulsações contidas. O tempo veio e fez com que muitas coisas mudassem em mim, os pensamentos amadureceram rápido e tomaram corpo. Um corpo covarde e pessimista, um corpo tímido e medroso que já não combina com o amor colérico de outrora.
O tempo me devorou.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Sobre espelhos e a vaga impressão da vida

Toda noite na frente do espelho enquanto massageio meu rosto com os cremes do último tratamento dermatológico que eu acredito que funcionará e sempre me decepciono, acabo por me perceber. Nunca me olho fixamente no espelho, ou olho só até não ter que, de fato, me ver. Ver-se não é simples, olhar nos próprios olhos, decorar cada detalhe de si... É estranho. É estranho que talvez queiramos viver no automático em tudo, inclusive em relação à nós mesmos. Queremos nos esquecer, nos apagar, nos corrigir; mas nunca nos olhar e apenas olhar por algum tempo.
Hoje, aqui, esses olhos cansados desistem de querer idealizar, os cabelos revoltos desistem de se comportar e o coração continua pulsando quase despercebido, a não ser por essa veia do pescoço que salta delicadamente no compasso de cada batida.
Sabe aquela vaga impressão da vida que é só silêncio em nós? Fica mais leve.